quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A garota que não amava


A tarde caía e lá estava. Doce Sofia. Sorria atoa. Se embalava como se fosse dona da felicidade. E afirmava que era. Tinha amigos, os melhores, segundo a própria. Desajeitada, pegada o violão e tentava pôr em prática algumas aulinhas teóricas mas logo desistia. Queria aproveitar o momento. Gritar para o mundo que ela estava lá e que adorava a vida e seus encantos. Relembrava as cenas que logo cedo presenciara: a roda de amigos falando asneiras e a deliciando com sorrisos exagerados. Tudo parecia lindo. Foi deitar em euforia. Agradeceu por ter dias como àquele. Rezou e, mesmo relutando, pegou no sono.

Para o dia seguinte já tinha compromisso: olhar os amigos. Era como rotina. Olhar aqueles mesmos rostos tornou-se o hobbie preferido da garota. Praguejava se não a deixassem fazer. E saía, leve e cantarolando -em tom baixo. Queria, também, ser um pouco egoísta. Guardar aqueles dias apenas consigo (e seus amigos, claro). Aquele dia tinha sido escolhido para visitar algumas barracas de um centro educacional ali perto - adorava ter amigos que gostassem de ler, de música boa e de tudo que a deixava feliz.

E assim foram.... Tudo passou como em um estalo. Estalo nada simples, mas, sim, cheio de purpurina e confetes. Ela mesma dizia: "a festa é feita pelos convidados, não pelo dj ou pelo lugar". Oh garota! Cheia de planos. Entristecia quando alguém dizia que aquilo era algo momentâneo. Mas também não ligava: nada lhe afetaria. Era forte e determinada. 

Os dias se passaram. Meses... O ano estava se preparando para encerrar: inicio das festas de fim de ano. Era algo simplesmente magnífico. "Esse ano ficará guardado para sempre, em cada fotografia ou palavra dita."- repetia para quem quisesse ouvir. A garota estava radiante. Tinha tudo, ou achava que tinha. É meio complicado entender essa garota. Era saltitante. Mas naquela noite havia algo diferente em seu modo de saltar. Era uma noite nublada e, meio sonolenta, resolveu descansar: deitar e se embalar na rede que decorava seu jardim. Olhava para o céu. Negro tão quanto misterioso. E, então, ficou ali... quieta. Sem saber o que pensar. Sem demora, caiu no sono.

Acordou assustada, já eram 2 da manhã e ela estava ali, tremendo de frio. Se cobriu e comportou-se. Não queria sair. Havia encontrado um lugar confortável e, que, lhe dava acesso ao céu: agora com algumas poucas estrelas. Aproveitou que o sono havia lhe deixado um pouco e postou-se a pensar. Desejou ter alguém ao lado para aproveitar aquele momento genuíno. Listou seus amigos. Sim, não pensava em mais ninguém. Mas acabou desistindo da escolha.

Lembrou-se de um casal de namorados que havia conhecido. Sorriu ao lembrar da felicidade de ambos e de como tinha comparado à própria com a daqueles que, aos beijos, compartilhavam da ideia. Mas não, tendo todo o tempo do mundo, começou a detalhar aquela conversa. Eles falavam de algo chamado "amor". Sofia já havia escutado aquela palavra mas sempre dava de ombros. Não naquele dia... Aquele tempo mórbido havia aproveitado para deixar um tom de nostalgia naquela menina. 

Recordou também das histórias dos jovens. No dia em que havia olhado os dois, escutou todas, mas estava mais concentrada no encontro que teria com seus amigos, no mesmo dia. Agora, ali, vulnerável a qualquer sentimento, Sofia deixou se entristecer. Aquele desejo de ter alguém, e, apenas um, ao lado: era tentador. Pode sentir a pitada de inveja de saber que duas pessoas podiam se completar tanto quanto o casal. Desejou ter aquilo. Mas, desengonçada como era, não entendia o que estava sentindo. 

Pobre garota. Não conhecia o amor. E, sem solução, chorou em sussurros na tentativa de eliminar aquela sensação estranha. Não queria aquilo. Aquela menina não sabia amar. Sentia medo. Enrolou-se e, implorou para dormir. Não conseguiu. Aquela madrugada foi longa. Posso jurar que, depois daquele dia, a garota tomou algum impulso. Mas não posso dizer tal coisa. Não encontrei mais aquela doce Sofia. Não sei por onde andas. Oh garota! Era tão feliz antes de descobrir o amor. 


Amanda Laryssa


21 comentários:

Blog do Óbvio - Manoel disse...

Amanda, ví seu comentário lá no meu blog sobre o falecimento do Niemeyer e vim conhecer o seu. Dei uma olhada geral e gostei muito. Já o estou seguindo e perseguindo, rs...rs.
Manoel

Camila Mancio. disse...

Eu amo seu blog, sério.

Cássia Sampaio disse...

Oie..
Boa noite!!
Quero lhe convidar para você participar do meu blog...
http://pedacodeumalma.blogspot.com.br/

Mudei de endereço, adoraria te encontrar por lá.
Estarei sempre por aqui...
Bjs e flores.
Fica com Deus
Cássia Sampaio

PauloSilva disse...

Às vezes mais vale ficar na ignorância. O conhecimento pode ser terrível também...
No entanto, maravilhoso post!
Abraço.

Heloisa Moraes disse...

Nem bom e nem ruim conhecer o amor. Depende de como vc ve!
Lindo post. Adorei o seu blog.

Super indico o livro de Amy, e pra quem gosta de escrever e ler vai ficar perdidamente apaixonado pelo pai dela que escreveu o livro.

cate disse...

Quando o medo se junta ao amor gera uma grande confusão, deveras perigoso e eu que o diga.....
Muito obrigada por teres passado pelo meu blog :)

Priscila Lima disse...

Gostei do seu texto, você escreve bem.
Seguindo seu Blog!

Beijos

Priscila Lima disse...

Gostei do seu texto, você escreve bem.
Seguindo seu Blog!

Beijos

wendy disse...

obrigada (:

disse...

"Pobre garota. Não conhecia o amor. E, sem solução, chorou em sussurros na tentativa de eliminar aquela sensação estranha." - que bonito!
Pobre garota, mesmo... porque, sem amor, sem amar, sem ser amadx, a vida não vale de nada.
Bonito o texto!

Gabriela Freitas disse...

Você escreve de um jeito, que, caramba Amanda! Bem, Sofia era feliz, e vai voltar a ser, quando aprender que amar dói um pouco, mas faz também um bem danado.

Camila disse...

Primeira vez aqui, parabéns pelo texto :)

Letícia Giraldelli disse...

Primeiramente vou parabeniza-la com o nome escolhido para a personagem: "Sofia" é mesmo um nome doce e desde que me conheço por gente digo que será o nome de minha filha!
A história é super encantadora, dá até um gosto de quero mais... Quero mais saber o que aconteceu com Sofia!! =)

Moça disse...

Conto mto bom!
E se existisse de fato?
bj
opinandoemtudo.blogspot.com.br

Moça disse...

Penso as vezes que em alguns momentos vale a pena nao saber de nada. Linda reflexão. Belo texto!
http://opinandoemtudo.blogspot.com.br

Camila disse...

Que texto maravilhoso !
Me identifiquei muito com Sofia, não tem noção do quanto..
Tu escreve muito bem, parabéns !

http://eucontocontos.blogspot.com.br/

Lucky Girl disse...

"Recordar faz parte, um outro alguém, uma outra coisa, ou uma outra arte." Lindo texto, parabéns, adorei seu blog :D

Beijos*
http://imalucky-girl.blogspot.com.br/

Thaís. disse...

Tô apaixonada por esse texto! E não é da boca para fora, tá? Que coisa mais linda. O final surpreende bastante! Parabéns, Amanda. De verdade.
E que a Sofia um dia aprenda a amar.
Um beijo, @pequenatiss.

Thaís. disse...

E ah, eu digo o mesmo do teu blog! Hahaha. Ele é um encanto, Amanda.
Beijos.

Yasmin disse...

Teu texto me lembrou muito aquela fase da vida pela qual todo mundo passa (alguns antes, outros mais tarde) que é quando a gente tá saindo da infância, em que nossos amigos são nossa única "importância" no âmbito social e passamos a perceber que falta alguma coisa. E é aí que a sementinha é plantada na nossa cabeça e cultivamos ela pra sempre. E como você mesma deixou transparecer no texto, dá saudade da época em que nada disso importava e a gente não notava falta.
Obrigada pela visita ao meu blog, sinta-se a vontade para voltar sempre que quiser.
Beijos.

Aline disse...

Já visitei seu blog outras vezes, há um tempo atrás, quando também tinha tempo para as leituras... Só que agora, seu título me remete a uma pessoa, que um dia disse que eu era a sua válvula de escape. Bonito isso, queria compartilhar isso com você...

Vamos ao mais importante: que texto lindo! Fui Sofia, ali, no início, me lembrando dos meus amigos do ensino médio que hoje têm sua vida longe de mim. Ainda são amigos, mas não podemos mais sentar numa sorveteria à tarde e morrer de rir. Não temos tempo. E, tocou, sabe? Aqui. A saudade. As lembranças. Obrigada por isso.
E, para terminar, uma frase dilacerante no final: "Era tão feliz antes de descobrir o amor."
Aconteceu comigo também. Com todo mundo, eu acho. Mas amor também é alegria. E espero o dia em que será apenas isso.
Um beijo, e um muito obrigada por visitar meu blog. É muito bom saber que ainda há pessoas que me leêm.